A Nossa Organização

Somos a Rede de Apoio Mútuo de Lisboa, uma organização feita por nós e para nós. Somos trabalhadores, moradores e imigrantes unidos porque sabemos que só assim somos fortes.

O nosso foco é a prática direta do apoio mútuo como estratégia de sobrevivência e ferramenta política de luta de classes, rejeitando o assistencialismo e a caridade esporádica que perpetuam as desigualdades.

Os Nossos Projetos Atuais

  • Cantina Voluntária: Oferecemos refeições gratuitas todos os sábados, das 11:30h às 15:00h, na Quinta do Ferro (Rua C nº 70).
  • RAMigrante: Aulas de português solidárias com migrantes, realizadas todas as quartas-feiras às 18:00h na Sirigaita.

Carta de Princípios da Rede de Apoio Mútuo

Documento Oficial em Formato Zine:

📄 Baixar Carta de Princípios (PDF)

Os princípios são os eixos que orientam a nossa ação e organização. Indicam o como e sobre que bases se organizar, e mais importante, os acordos coletivos definidos pela organização que todos os membros devem compactuar. Não devem ser encarados como dogmas, mas sim como pontos de acordo de consenso entre os participantes da RAM, cuja compreensão deve ser de todos aqueles que escolham dela participar. É um dos documentos mais importantes da organização, e qualquer mudança ou adaptação deve ser discutido em congresso. A participação da RAM não faz recortes políticos, ideológicos ou identitários, razão pela qual ela é determinada pela compactuação com os seguintes princípios:

Internacionalismo

O facto de viver num mundo globalizado e dominado pelo regime capitalista faz com que a classe trabalhadora compartilhe vivências e reivindicações comuns em todos os países. Apesar das diferenças culturais, linguísticas e epistemológicas serem de grande importância, praticamente toda a população pobre está, neste momento da história, e em menor ou maior intensidade, oprimida pelo mesmo processo. Sendo do nosso entendimento que há uma maior proximidade entre as classes baixas de países diferentes do que entre quem é privilegiado e quem é oprimido dentro dum mesmo país, e sendo também do nosso entendimento que o capital não segue os limites fronteiriços que tantas vezes são impostos e forçados a quem menos deles beneficia; declaramos o internacionalismo, querendo dizer a solidariedade com todos os povos deste mundo como um dos nossos princípios base. Para que nenhuma luta passe despercebida, para que a solidariedade entre povos estabeleça laços que nem o capital nem a distância possam quebrar, para que a libertação e salvação seja para todos e não apenas uma ou outra área geográfica, entendemos ser da nossa responsabilidade e interesse o servir de amplificador às vozes mais distantes de todos os cantos do mundo. Para tal, buscamos a cooperação com coletivos de todo o mundo, procurando integrar as nossas lutas num processo global mais amplo.

Contra o Racismo e o Colonialismo

Entendemos o racismo como fruto direto do processo histórico que desenvolveu o capitalismo, classificando a população terrestre entre mais e menos humanos, conforme se aproximavam ou se afastavam do homem branco europeu. A escravatura e o tráfico humano transatlântico, crimes fundacionais da modernidade capitalista perpetuados por mais de 400 anos, deixaram profundas marcas na sociedade humana a nível global, cujas reparações nunca foram pagas ou sequer discutidas seriamente na esfera do poder. Posteriormente, no século XIX, o racismo pseudocientífico aparece para reafirmar a ideologia racista daqueles que detêm o poder, mantendo-se nos espaços de produção de discursos até aos dias de hoje. Nas esferas populares, resulta na divisão do povo pobre, colocando os trabalhadores explorados contra si mesmos e envenenando os trabalhadores brancos contra as populações racializadas, levando-os a defender posições contrárias aos seus próprios interesses. Para a população não branca, os efeitos são ainda mais perversos, tornando a sua existência permeada por violências diversas de natureza física e psicológica. Como característica estrutural, mantém as populações não brancas numa posição subalterna e precária em relação à população branca. Entendemos o colonialismo como sendo fruto do mesmo processo, mantendo-se até hoje nas relações parasitárias de empresas e estados-nação com os territórios e continentes do chamado sul global. Esta relação reproduz-se internamente, tendo como alvo as populações oriundas destes mesmos territórios. Entendemos as políticas económicas e migratórias europeias como criminosas, porque ameaçam diretamente a vida de milhares de pessoas e relegam centenas de milhares ao trabalho precário ou mesmo escravo.

Apoio Mútuo

Entendemos o apoio mútuo como a prática da solidariedade entre os de baixo, que é ao mesmo tempo uma estratégia de sobrevivência frente à violência capitalista e uma ferramenta política da luta de classes. Enquanto que os de cima defendem o individualismo e a competição entre os pobres como uma estratégia para manter a sociedade de classes, defendemos o apoio mútuo como contraposição a esses mesmos princípios, percebendo nele uma ferramenta essencial para o acumular de forças coletivas. Não aceitamos a benevolência temporária e esporádica de estados, igrejas, ONGs ou indivíduos por entendermos ser uma ferramenta de manutenção das desigualdades sociais, focada apenas nas consequências da exploração capitalista sem questionar o atual sistema económico nem realizar uma crítica sistémica.

Autonomia

As decisões da Rede de Apoio Mútuo devem sair dos próprios organismos da Rede, mantendo-a autónoma em relação a outros grupos e organizações. Vemos na cooptação das entidades de classe por partidos e organizações alheias um dos maiores desafios contemporâneos da classe trabalhadora, gerando apenas derrotas e retrocessos nas nossas conquistas. As ferramentas criadas pelos de baixo devem atender aos interesses dos de baixo, e não da agenda de um ou de outro partido político.

Ação Direta

Entendemos que as conquistas devem ser feitas através das nossas próprias mãos e não delegadas através de outros atores alheios à nossa classe. Vemos na luta de classes diária e no enfrentamento direto com as elites uma atividade essencial para a construção da consciência de classe e para o acúmulo das nossas forças coletivas, o único método capaz de nos trazer conquistas verdadeiras e duradouras.

Contra o Patriarcado e o Cisheterosexismo

Vemos o patriarcado como um dos elementos estruturantes da modernidade capitalista, dividindo o povo pobre e condenando metade da humanidade a uma condição de trabalho não pago. Num sistema patriarcal, as mulheres são vistas como inferiores aos homens e relegadas ao trabalho doméstico não assalariado. Ao mesmo tempo, propõe reproduzir a lógica de poder do estado e do capital dentro dos núcleos familiares, horizontalizando/enraizando a desigualdade e a opressão. Entendemos que as consequências da construção identitária do homem branco, pela classe dominante, têm sido violentas para toda classe trabalhadora, entre homens cishéteros e dos homens cishéteros para com as mulheres e dissidentes de género e sexuais privando-nos da autonomia e autodeterminação sobre os nossos próprios corpos, desejos e necessidades. Por isso, A RAM rejeita o sistema de opressão machista e cisheteronormativa que rege a nossa sociedade. Somos contra qualquer violência baseada na misoginia e no ódio a pessoas com identidades de género e sexualidades dissidentes. Entendemos que estas opressões não afetam todos os indivíduos da mesma forma e que as suas consequências se agudizam nas trabalhadoras precárias, nas migrantes, pessoas racializadas e pessoas com diversidade funcional. O cisheterosexismo reifica o binarismo de género e pré-determina papéis sociais e sexuais para as pessoas com base em características do seu nascimento, marginalizando as diferenças num processo brutal e violento. Para além de dividir os de baixo, ainda coloca em risco iminente a integridade física e mental de todas aqueles que não se regem segundo as normas impostas. Defendemos, então, a autonomia das mulheres, lésbicas, bi e pansexuais, gays, transvestigêneres e não-bináries para decidir como lutar pela sua liberdade.

Federalismo e Horizontalidade

Prezamos o tipo de organização cujas decisões partam de baixo para cima e da periferia para o centro, onde cada parte tenha igual voz e poder de decisão e esteja igualmente informada, seja o indivíduo no núcleo ou o núcleo na rede.

Luta de Classes

Entendemos que a sociedade atual é dividida por classes sociais, sendo esta uma relação transversal, que acaba por determinar as experiências e formar a subjetividade dos sujeitos. Entendemos também que a relação de classes não é harmoniosa, mas sim baseada numa violência intrínseca, na qual as classes dominantes são os principais responsáveis pela sua perpetuação. A guerra de classes, então, é a condição inerente ao capitalismo. Dentro deste contexto, pertencemos e identificamo-nos com as classes populares, aquelas que não têm nenhum interesse na continuidade desta forma de organização social. Somos trabalhadores, mal-empregados ou desempregados, tiramos o nosso sustento através do nosso próprio esforço e não da exploração parasitária de outras famílias.

Anticapitalismo

Entendemos que o capitalismo objetifica a vida humana, reduzindo-a a mais uma mercadoria transacionável e negociável. Também transforma tudo que existe sobre a face da terra em produto para o consumo, levando a humanidade e o nosso planeta à exaustão. Compreendemos também que o modo de organização capitalista apenas beneficia uma ínfima parte da humanidade, deixando à maior parte das populações apenas uma pequena porção da riqueza produzida por todas. As elites, que controlam o sistema capitalista, têm uma fome insaciável pelo lucro e pelas riquezas, fazendo com que o sistema de exploração capitalista dependa de uma expansão constante e insustentável. Vemos na luta anticapitalista a única hipótese de futuro para a humanidade e para o nosso planeta.